terça-feira, 24 de março de 2009

King-Kong

Li recentemente Devassos no Paraíso, livro do João Silverio Trevisan que traz um levantamento histórico da homossexualidade no Brasil, desde a colônia até os dias de hoje. Em um capítulo intitulado “Vênus deitada, Urano nas esquinas”, João relata a vinda ao Brasil de um argentino chamado Tulio Carella, que descobriu o potencial para o sexo gay na cidade de Recife.

Tulio fez sucesso entre os homens nordestinos da década de 60 já que, de acordo com seu relato, era bastante assediado. Seu diário com relato de suas aventuras sexuais foi publicado no Brasil, e o trecho a seguir, copiado do Devassos do Paraíso, é parte dele. A história é mais ou menos assim. Túlio conhece seu Jesus Luz, um rapaz de 22 anos com um pau de 23 cm por 4 de diâmetro, um monumento quase e narra sua primeira vez. O conto é descrito por João Silvério como “algumas das mais belas páginas de erotismo homossexual”.

Então, sem mais delongas, vamos ao texto.

“King-Kong procede com cautela: pouco a pouco desliza para as costas de Lúcio até encontrar uma saliência convexa onde se instala a princípio suavemente, depois acentuando o roçado para torná-lo vivo, intencional. (...) Decidiu-se. Com uma liberdade que deixa Lúcio pasmado, desabotoa a camisa e tira-a. Faz a mesma coisa com a calça. Está completamente nu e se exibe com orgulho: sabe que é difícil achar-se um corpo mais perfeito que o seu.

E como Lúcio parece indeciso, atrai-o, ajuda-o a tirar a roupa. Lúcio vê seu próprio corpo e o de King-Kong no espelho da penteadeira. A luz escassa é suficiente para assinalar os relevos e as concavidades. Comparam os membros que têm quase o mesmo tamanho. Mas King-Kong não entende de preliminares prolongadas: quer trepar sem mais espera. Gira-o, para colocá-lo na frente dele, de costas e sem perder tempo apoia a glande na carne indefesa.

Lúcio, que se havia distraído um instante contemplando os corpos no espelho, rebela-se: nunca poderá aguentar esse caralho. Tenta separar-se, mas as mãos de King-Kong o impedem, enquanto continua empurrando em vão para forçar a entrada muito estreita. Lúcio se torce de dor e consegue afastar-se, mas é novamente atraído pela força incontestável desses músculos de aço. Uma nova tentativa fracassa e Lúcio sofre e se nega, mas já não pode controlar o macho excitado que o segura com uma mão e com a outra passa cuspe no pênis. Enfia-o novamente; seus dedos transformaram-se em tenazes de ferro.

Lúcio sente uma espécie de pavor e atração ao mesmo tempo. É possível que este cilindro de carne dura penetre em seu corpo? Algo do desejo desmedido de King-Kong comunica-se a ele. King-Kong agora é um monstro obcecado, possuído por um furor erótico exaltado, implacável: perdeu o controle de suas reações. Está cego, mudo; mudo com exceção de certos ruídos guturais e respiração entrecortada que indicam inquebrável propósito. Para ele só conta a sensação do tato e busca do contato das mucosas que lhe proporcionará a calma que perdeu. É preciso que entre nesse corpo pálido, alheio à sua terra, para comunicar-se com os deuses brancos que o habitam, mesmo que tenha de rasgá-lo e fazê-lo sangrar. Bota mais saliva, abre as nádegas e aponta com o membro teso. As possibilidades de conseguir seu intento parecem remotas.

Lúcio dá um grito e foge. King-Kong ruge, volta a apoderar-se de sua vítima, coloca bem a verga, empurrando, empurrando mais quando percebe que a carne está começando a ceder. Dilatou-se levemente diante da contínua pressão, permitindo a esperança de completar o ato. Respira profundamente e empurra com violência terrível; Lúcio afoga um grito ao sentir-se invadido. Os dedos do violador cravam-se em suas costas e lhe produzem uma dor que de nenhuma maneira o distrai da outra: equilibram-se, complementam-se, anulam-se. O violentíssimo desejo de King Kong contagia-o completamente. Esquece o pudor, as precauções da prudência e as restrições morais. Sente-se compelido a entregar-se, anseia sentir e desfrutar desse instrumento gigantesco. Relaxa-se, ajuda o macho que, com movimentos que doem e não doem, vai penetrando em suas entranhas.

A glande primeiro e depois, progressivamente, o resto, tudo vai desaparecendo pelo dilatado esfíncter anal. Um último empurrão completa a obra; King-Kong é dono do seu corpo, submete-o; sente que toca no fundo e que triunfa. Suas garras se tornam de seda, em vez de cravar os dedos acaricia o peito, as costas, o ventre, e apoia seu rosto num dos ombros de Lúcio para saborear com mais clareza os gemidos do paciente. Lúcio sofre, mas esse sofrimento, quem sabe por que intercâmbio na ordem estabelecida para cada sensação, é também deleite. O violador começa a mover-se, a princípio com lentidão depois com maior força e velocidade, até alcançar um ritmo igual, regular, inquisitivo.

No espelho se reproduzem os corpos acasalados, que se movem em cadência, e o longo sair e entrar, à maneira de um êmbolo, do enorme membro viril que o despedaça, mas que o faz experimentar sensações jamais sentidas. O silêncio se acentua (a respiração arquejante dos dois participa desse silêncio) e transforma-se em algo jubiloso que aumenta, cresce, até parecer um canto. Lúcio põe as mãos para trás, a fim de acariciar esse corpo maravilhoso, senti-lo mais e melhor. Nesse momento, King-Kong emite um doce gemido e atinge o orgasmo, imobilizando-se.

Lúcio, que já não pode suportar mais, masturba-se e compartilha do prazer com o outro. Um leve cansaço invade os pulmões. As mãos perdem sua condição possessiva e acariciante, resvalam, fatigadas, agradecidas. Um feliz relaxamento se apodera dos dois, que permanecem quietos alguns instantes antes de se separarem. King-Kong retira o membro que perdeu a dureza mas não o comprimento e Lúcio suspira com alívio e nostalgia. Lavam-se na pia, vestem-se (...) Um sorriso agradável ilumina o rosto de King-Kong, que se sentou e volta a empunhar o lápis. Pergunta-lhe se está contente. Lúcio responde, omitindo a metade da verdade: - Doeu muito. – O outro escreve, com uma expressa orgulhosa: ‘Doeu mais gostou’.”



5 comentários:

Anônimo disse...

putz... do caralho - literalmente né!

Anônimo disse...

Esta é uma dor deliciosa,pois depois de abrir caminho,a gente não quer mais tirar esse rolão de dentro!!!

Guy Franco disse...

divertidíssimo. ri muito na parte do "Enfia-o novamente; seus dedos transformaram-se em tenazes de ferro." e "os corpos acasalados, que se movem em cadência". Tô pensando aqui, um corpo acasalado se movendo em cadência.

Anônimo disse...

NÃO IMPORTA QUANTAS VEZES EU LEIA ESSE TRECHO, SEMPRE TENHO UMA EREÇÃO.

PAULO STRAUSS

Rogerio disse...

Maravilhosa narrativa. Que é gay sabe o que é senti uma rola invadir, é muito gostoso. Ai fico com tanta vontade.