domingo, 25 de abril de 2010

delírios de uma mente gay


- sem titulo -

"Os destroços de uma sociedade transviada
flutuavam pelos rios moribundos
criados pelos restos podres
desta sua deterioração lenta e trágica

Os primeiros sinais deste processo,
já longínquo no tempo e mesmo espaço
perfizeram um caminho solene
diante de rostos sempre vislumbrados

Entorpecidos por uma vaidade tola
cega e cruel, que corroía-lhes
o âmago, vísceras, dilacerando o
mais precioso, seu espírito.

A sua boa intenção de mais nada vale agora
o meu arrependimento inútil
logo tudo será já em vão
inclusive o passado deixará de ser o que é!

Os sinais do apocalipse já acabaram
enquanto o fim ainda não veio
e perdidos na multidão que se espalha
perâmbulam os criadores deste fim

O resto, desprovidos de alma,
vagam errantes por entre o esgoto
que cobre a terra e escorre do céu
em sinal de fúnebre lamentação

Entorpecidos de um orgulho audacioso
burro e infeliz, que tíra-lhes
a inteligência de outrora,
deixando-os ocos de compaixão.

A sua boa intenção de mais nada vale agora
o meu arrependimento inútil
logo tudo será já em vão
inclusive o passado deixará de ser o que é! "

by Guilherme Messias

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Amateurs:

As fotos que seguem foram tiradas em um modesto Sex Shop na rua Aurora em São Paulo, que serve de fachada para a locação de cabines onde homens saciam seus desejos por outros homens. O modelo, um rapaz que flanava pelo local, ficou orgulhoso em exibir seus atributos.

"Homocultura" pura!


Nas cabines, tvs exibem dez minutos
de pornografia por dois reais.

Quenda o "estilo" na depilação da bee. Ui!
(mas na hora, de costas, nem notei...)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Proteção ou infantilização: uma questão para refletir.



Chamo a atenção para o caso que envolveu um homem de vinte e seis anos - Ulisses Leite Novaes Basílio - e um adolescente de quatorze anos, amplamente divulgado pela mídia brasileira nos últimos dias e tratado como "estupro" pelo delegado encarregado do caso.

Particularmente, acredito que a iniciação sexual dos adolescentes deva acontecer com outros da mesma faixa etária, mas não considero improvável, ou condenável, que um rapaz de quatorze ou quinze anos possa manter relações de qualquer tipo com alguém dez ou quinze anos mais velho. Desde que não haja o uso da força e o sexo seja consensual.

Intrigado com o caso, fiz uma busca na internet e encontrei este texto do advogado
Ulisses: pedófilo ou vítima da homofobia?

Um adolescente de 14 anos e um homem casado de 26 anos que mantinham contato pelo computador, depois de um encontro marcado, chegaram as vias de fato. Pela reportagem que assisti, o adolescente foi na casa do homem casado, quando manteve relações sexuais com o Ulisses e depois continuou mantendo contato pela internet.

Ulisses Leite Novais Basílio, de 26 anos, foi preso na manhã desta terça-feira por policiais da Delegacia de Proteção a Criança e Adolescente (DPCA). Ele é acusado estupro de vulnerável, por manter relações sexuais com um menor de 14 anos.

Ulisses foi crucificado, exposto publicamente como pedófilo, em rede nacional, antes de qualquer julgamento. Se for, nada a declarar. No entanto, essa história é no mínimo estranha. Estupro sugere uma violência e ato sexual que não foi desejado, e quando ocorre, normalmente a vítima jamais mantém contato com o agressor. Qualquer pessoa que navegue na internet ou utilize o MSN não está obrigado a conversar com quem não deseja. Basta bloquear ou ignorar. Isto é elementar e básico.

A mãe “desconfiou” do filho e a partir de então ela e a família armaram uma cilada para o adulto, após um mês da ajuda da polícia. As conversas foram direcionadas pela mãe, substituindo o filho no computador e gravadas com auxílio do tio do rapaz.

Não me cabe defender pedófilos e nem pretendo. Na verdade abomino. Agora será que o adulto de 26 anos é um pedófilo ou simplesmente o adolescente e ele criaram uma relação e depois a família do menor descobriu e resolveu atuar de forma a transformar o fato em crime?

Na realidade, o Estatuto da criança e adolescente garante ao menor de 14 anos o direito de exercer a sua sexualidade. Portanto, o fato dele ter vida ativa sexual não seria a causa.

A questão está em saber se o adulto se valeu da sua perrogativa de homem experiente para induzir ou forçar o menor a pratica sexual - que não desejava -.

Se o julgador, em cumprimento ao que foi disposto pelo legislador, entende que o menor de 14 anos pode ser ativo sexualmente, não pode desconsiderar que seus pais podem não concordarem com essa prática, especialmente se deparados com uma possível orientação homossexual do menor. Tal equação, menor, adulto, sexo, internet, pais, polícia pode muito bem resultar num cenário perfeito para responsabilizar alguém pelo evento, encenando um crime que foi totalmente programado, de um lado, à título da homofobia existente, de outro, valendo-se do receio que o menor possa ter diante da autoridade paterna e do medo de decepcioná-los, além, evidentemente, da própria irresponsabilidade do maior. Será que os pais reagiriam da mesma forma se o envolvimento do adolescente fosse com uma mulher de 26 anos? Talvez até se orgulhassem.

Reitero, não sei se é o caso. Pode ser que o menor tenha sido abusado sexualmente pelo maior, embora estranhe o fato de depois do dito abuso ambos continuarem se correspondendo pela internet. Acho que a questão deve ser muito bem verificada pelas autoridades competentes. Apenas suspeito que as provas “provocadas” e advindas pela família do menor (absolutamente envolvida emocionalmente), sejam imparciais. E aí, se o Ulisses for inocente, ele, sua esposa e família como ficam depois de toda a exposição pública?
.
Evidente que, na dúvida, entre os interesses de um menor e um maior, daquele deva prevalecer, no entanto, que seja permeado com clareza e justiça."


O original deste texto pode ser conferido no blog do advogado. Há um segundo post sobre o assunto no blog. Recomendo!

A imagem no alto deste post é do fotógrafo Anthony Goicolea.

A foto de
Ulisses Leite Novaes Basílio foi divulgada pelo DPCA

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Reino em interregno*

Você sabia, Ruan? São Paulo está no limite da catástrofe. É a cidade mais angustiante do mundo, nas palavras do diretor-geral dos transportes da França, em visita à prefeitura. Você não sentiu dor de cabeça ou falta de ar? Ontem os índices de poluição bateram recordes de má qualidade no ar em São Paulo. Prontos-socorros estão cheios. A situação é de pré-calamidade pública. Na próxima semana, a poluição vai piorar, Ruan. São 1.431 assaltos por mês em São Paulo, um assalto a cada meia hora. Você sabia, Ruan? Esquadrão da Morte: são 594 execuções entre 1970 e 1976. E se você, Ruan, for confundido com um bandido? Motim na cadeia de Osasco: presos aproveitaram o Dia dos Pais para tentar fugir. Iam sair assim na boa, Ruan. Déficit na balança de pagamentos: 3,4 bilhões de dólares no primeiro semestre. O negócio tá pesado, Ruan. Bomba na sede da Associação Brasileira de Imprensa. Panfleto deixado no local ataca a nova tentativa de comunização do Brasil. Esses caras não seriam subversivos, Ruan? A população de São Paulo consome 108 milhões de quilos de carne sem inspeção sanitária. Dessa ninguém escapa, Ruan. Secretário da Justiça pede ajuda das prefeituras da Grande São Paulo para esvaziar os presídios: ocorrem cerca de mil mandados de prisão por mês na cidade. Pô, Ruan, tem tanto criminoso por aqui? A polícia cria a Garra, para combater os bandidos, mas o secretário de segurança pretende que a população seja os olhos da polícia. É, todo mundo vai vigiar todo mundo, Ruan. Governo acusa Igreja de manter atividades subversivas e cria um clima de confronto aberto. Padres subversivos, Ruan? Polícia estoura aparelho e prendea cúpula do Partido Comunista do Brasil na madrugada de ontem, em São Paulo. Mais subversão, Ruan. Censura Federal proíbe próxima novela da Globo, alegando que prega a dissolução do casamento. O casamento é indissolúvel, não esqueça, Ruan. Senador da Arena denuncia que comunistas estão infiltrados até no governo e nas Forças Armadas. Neste país só tem subversivos, Ruan. Irritados por causa do atraso, passageiros depredam o trem e a estação, em Vila Matilde. Subversivos, Ruan? Secretário de Segurança garante: não permitirá a manifestação dos estudantes da USP. Ufa. Uma pergunta se impõe aos analistas: 1977 conseguirá ser pior do que 1976, no Brasil? Ufa.

***

Ó ó cupido vê se deixa em paz meu pobre coração já não aguenta mais Maria Teresa é uma moça bonita que sonha com a cidade grande em Estúpido cupido, as incríveis aventuras da juventude ó ó cupido pra longe de mim.


*
Capítulo do livro Rei do Cheiro. Novo romance do escritor João Silvério Trevisan.



terça-feira, 24 de março de 2009

King-Kong

Li recentemente Devassos no Paraíso, livro do João Silverio Trevisan que traz um levantamento histórico da homossexualidade no Brasil, desde a colônia até os dias de hoje. Em um capítulo intitulado “Vênus deitada, Urano nas esquinas”, João relata a vinda ao Brasil de um argentino chamado Tulio Carella, que descobriu o potencial para o sexo gay na cidade de Recife.

Tulio fez sucesso entre os homens nordestinos da década de 60 já que, de acordo com seu relato, era bastante assediado. Seu diário com relato de suas aventuras sexuais foi publicado no Brasil, e o trecho a seguir, copiado do Devassos do Paraíso, é parte dele. A história é mais ou menos assim. Túlio conhece seu Jesus Luz, um rapaz de 22 anos com um pau de 23 cm por 4 de diâmetro, um monumento quase e narra sua primeira vez. O conto é descrito por João Silvério como “algumas das mais belas páginas de erotismo homossexual”.

Então, sem mais delongas, vamos ao texto.

“King-Kong procede com cautela: pouco a pouco desliza para as costas de Lúcio até encontrar uma saliência convexa onde se instala a princípio suavemente, depois acentuando o roçado para torná-lo vivo, intencional. (...) Decidiu-se. Com uma liberdade que deixa Lúcio pasmado, desabotoa a camisa e tira-a. Faz a mesma coisa com a calça. Está completamente nu e se exibe com orgulho: sabe que é difícil achar-se um corpo mais perfeito que o seu.

E como Lúcio parece indeciso, atrai-o, ajuda-o a tirar a roupa. Lúcio vê seu próprio corpo e o de King-Kong no espelho da penteadeira. A luz escassa é suficiente para assinalar os relevos e as concavidades. Comparam os membros que têm quase o mesmo tamanho. Mas King-Kong não entende de preliminares prolongadas: quer trepar sem mais espera. Gira-o, para colocá-lo na frente dele, de costas e sem perder tempo apoia a glande na carne indefesa.

Lúcio, que se havia distraído um instante contemplando os corpos no espelho, rebela-se: nunca poderá aguentar esse caralho. Tenta separar-se, mas as mãos de King-Kong o impedem, enquanto continua empurrando em vão para forçar a entrada muito estreita. Lúcio se torce de dor e consegue afastar-se, mas é novamente atraído pela força incontestável desses músculos de aço. Uma nova tentativa fracassa e Lúcio sofre e se nega, mas já não pode controlar o macho excitado que o segura com uma mão e com a outra passa cuspe no pênis. Enfia-o novamente; seus dedos transformaram-se em tenazes de ferro.

Lúcio sente uma espécie de pavor e atração ao mesmo tempo. É possível que este cilindro de carne dura penetre em seu corpo? Algo do desejo desmedido de King-Kong comunica-se a ele. King-Kong agora é um monstro obcecado, possuído por um furor erótico exaltado, implacável: perdeu o controle de suas reações. Está cego, mudo; mudo com exceção de certos ruídos guturais e respiração entrecortada que indicam inquebrável propósito. Para ele só conta a sensação do tato e busca do contato das mucosas que lhe proporcionará a calma que perdeu. É preciso que entre nesse corpo pálido, alheio à sua terra, para comunicar-se com os deuses brancos que o habitam, mesmo que tenha de rasgá-lo e fazê-lo sangrar. Bota mais saliva, abre as nádegas e aponta com o membro teso. As possibilidades de conseguir seu intento parecem remotas.

Lúcio dá um grito e foge. King-Kong ruge, volta a apoderar-se de sua vítima, coloca bem a verga, empurrando, empurrando mais quando percebe que a carne está começando a ceder. Dilatou-se levemente diante da contínua pressão, permitindo a esperança de completar o ato. Respira profundamente e empurra com violência terrível; Lúcio afoga um grito ao sentir-se invadido. Os dedos do violador cravam-se em suas costas e lhe produzem uma dor que de nenhuma maneira o distrai da outra: equilibram-se, complementam-se, anulam-se. O violentíssimo desejo de King Kong contagia-o completamente. Esquece o pudor, as precauções da prudência e as restrições morais. Sente-se compelido a entregar-se, anseia sentir e desfrutar desse instrumento gigantesco. Relaxa-se, ajuda o macho que, com movimentos que doem e não doem, vai penetrando em suas entranhas.

A glande primeiro e depois, progressivamente, o resto, tudo vai desaparecendo pelo dilatado esfíncter anal. Um último empurrão completa a obra; King-Kong é dono do seu corpo, submete-o; sente que toca no fundo e que triunfa. Suas garras se tornam de seda, em vez de cravar os dedos acaricia o peito, as costas, o ventre, e apoia seu rosto num dos ombros de Lúcio para saborear com mais clareza os gemidos do paciente. Lúcio sofre, mas esse sofrimento, quem sabe por que intercâmbio na ordem estabelecida para cada sensação, é também deleite. O violador começa a mover-se, a princípio com lentidão depois com maior força e velocidade, até alcançar um ritmo igual, regular, inquisitivo.

No espelho se reproduzem os corpos acasalados, que se movem em cadência, e o longo sair e entrar, à maneira de um êmbolo, do enorme membro viril que o despedaça, mas que o faz experimentar sensações jamais sentidas. O silêncio se acentua (a respiração arquejante dos dois participa desse silêncio) e transforma-se em algo jubiloso que aumenta, cresce, até parecer um canto. Lúcio põe as mãos para trás, a fim de acariciar esse corpo maravilhoso, senti-lo mais e melhor. Nesse momento, King-Kong emite um doce gemido e atinge o orgasmo, imobilizando-se.

Lúcio, que já não pode suportar mais, masturba-se e compartilha do prazer com o outro. Um leve cansaço invade os pulmões. As mãos perdem sua condição possessiva e acariciante, resvalam, fatigadas, agradecidas. Um feliz relaxamento se apodera dos dois, que permanecem quietos alguns instantes antes de se separarem. King-Kong retira o membro que perdeu a dureza mas não o comprimento e Lúcio suspira com alívio e nostalgia. Lavam-se na pia, vestem-se (...) Um sorriso agradável ilumina o rosto de King-Kong, que se sentou e volta a empunhar o lápis. Pergunta-lhe se está contente. Lúcio responde, omitindo a metade da verdade: - Doeu muito. – O outro escreve, com uma expressa orgulhosa: ‘Doeu mais gostou’.”



domingo, 9 de novembro de 2008

Esfacelado

O espelho, as marcas na face, o olho pesado e a vontade de gozar, mais uma vez, sair a noite, ir a Vieira, caminhar pelo Centro, encontrar corpos e barulhos. Copos e álcool.

Saiu.

Já era 23h, horário de pico, inúmeras pessoas, inúmeros garotos, o que procurava porém... Achava que os garotos, só os conseguiriam com dinheiro, os outros mal olhavam para ele.

“Também, 38 anos, uma barriga enorme, cabelo sem cuidado... nunca liguei para estética, para nada e ninguém. E hoje?”

Caminha, entra em um boteco e pede um conhaque, toma num gole só, pede outro, sem degustação, novamente direto para o fígado. Ao seu redor a sensação muda, o álcool sobe, resolve pegar um pó.

“um não, uns cinco”

Volta a caminhar, começar a olhar os vários michês, “quero um pauzudo, que eu sinta no fígado”. Não demora, encontra, “vamos para um hotelzinho aqui perto”, diz o garoto de programa.

Chegaram no pulgueiro, “1h, R$20”, “ta ótimo”, diz ele, paga e ruma ao quarto com o garoto. Entram, ambos não querem demora.

“quero sem camisinha”, “mais caro”, “foda-se, eu pago”

Os dois cheiraram, já estão nus, ele admirado com a virilidade do garoto e o pau em riste.

“vira seu puto”

Ele obedece, fica de quatro. Sem dó o michê enfia de uma vez só, ele grita, sente dor, era o que buscava, goza na cara dele. O serviço termina, ele fica no chão extasiado, realizado. De volta para a rua.

“não quero mais nada”

Volta para o bar, conhaque, uísque, vai pro banheiro, cheira, de - repente vê um reflexo no vidro da porta.

“eu já estive aqui”

A rua, tudo já está meio estranho, para em frente a um carro, vê alguém.

“parece comigo... já estive assim”

Bebe mais, agora compra dos ambulantes, mais barato, cheira no meio da rua.

“foda-se”

Alguns meninos passam por ele, arrumados, olham torto.

“hey...”

Diz ele.

“já fui assim”

O grupo some de vista.

“não há mais ninguém”

Pensa ele.

“um bando de estranho”

Pega outro conhaque de outro ambulante, vira o drink, tudo estranho, gira.

“eu já fui você”

Não se lembra mais, as pernas fraquejam, se apóia em alguém, o empurra, vai de cara ao chão, a calçada treme, o corpo cai esfacelado.
Por lá, muito tempo ficaria.

domingo, 26 de outubro de 2008

O menino do Gouveia

O menino do Gouveia é tido como o primeiro conto erótico gay publicado no país. Editado pela revista Rio Nu, em 1914 e assinado pelo pseudônimo de Capadócio Maluco. Na época Gouveia era gíria para homens velhos que curtem garotões. O texto foi retirado do livro Frescos Trópicos, de James Green e Ronald Polito. Boa leitura



O Menino do Gouveia


I

Estendido junto a mim na cama suspirativa do chateau, depois de ter sido enrabado duas vezes, tendo na mão macia e profissional a minha respeitável porra, em que fazia umas carícias aperitivas, o menino do Gouveia, isto é, o Bembem, contou-me pitorescamente a sua história com todos os não-me-bulas de sua voz suave de puto matriculado.

- Eu lhe conto. Eu tomo dentro por vocação; nasci para isso como outros nascem para músicos, militares, poetas ou até políticos. Parece que quando me estavam fazendo, minha mãe, no momento da estocada final, peidou-se, de modo que teve todos os gostos no cu e eu herdei também o fato de sentir todos os meus prazeres na bunda.

Quando cheguei aos meus treze para catorze anos, em que todos os rapazes têm uma curiosidade enorme em ver uma mulher nua, ou pelo menos um pedaço de coxa, um seio ou outra parte do corpo feminino, eu andava a espreitar a ocasião em que algum criado, ou mesmo meu tio, ia mijar, para deliciar-me com o espetáculo de um caralho de um homem.

Não sei por que era, eu sentia uma atração enorme para o instrumento de meus prazeres futuros.

Havia então, entre os empregados, um que possuía uma parativelas que era mesmo um primor de grossura e comprimento, fora a cabeçorra formidável. Uma destas picas que nos consolam até a alma!

Entretanto, o que mais aguçava a minha curiosidade e me dava um desejo insofrível, era poder ver a porra de meu tio. Este, porém, era muito cauteloso, e jamais ia satisfazer as suas necessidades sem trancar a porta da privada, ficando eu deste modo com o único recurso de calcular e julgar, pelo volume que lhe via na perna esquerda, as dimensões do seu mangalho que parecia ser colossal.

Um dia em que ele e titia foram à cidade muni-me de uma verruma e fiz na porta do quarto dos mesmos uma série de buracos dispostos de maneira que eu pudesse observar todos os movimentos noturnos.

- Confesso, Capadócio Maluco – acrescentou o Bembem, aumentando o movimento punhetal que vinha fazendo na minha pica -, que nem uma só vez me passou pela cabeça a idéia de que ia ver a titia nua ou quase nua. O meu único pensamento era poder apreciar ereto o membro viril do titio.

Nessa noite, mal nos recolhemos aos dormitórios, eu fui postar-me, metido na comprida camisola de dormir, na porta e com os olhos pregados nos furos previamente feitos.

Parece, porém, que o casal não tinha pressa nenhuma em se foder ou então ambos andavam fartos, pois meu tio, em camisa de meia, sem tirar as calças, sentou a ler um livrinho que depois eu souber ser da Coleção Amorosa do Rio Nu, enquanto minha tia, em mangas de camisa, principiou uma temível caçada a algumas pulgas teimosas.

Se eu gostasse de mulher, teria me deliciado vendo, nos movimentos bruscos da caçada, os seios da moça, que eram alvíssimos, de bicos vermelhos, redondos e rijos como se ela ainda fosse cabaçuda; porém todo o meu prazer, toda a minha curiosidade, estavam entre as pernas do tio, no seu caralho, cuja lembrança me punha comichões na bunda.

Afinal, ela parece que cansou na perseguição dos pequenos animais, pois deixou cair a saia e rapidamente substituiu a camisa por uma pequena camiseta de meia de seda que lhe chegava até o meio das nádegas.

Mesmo sem querer, tive que admirar-lhe as pernas bem-feitas, as coxas grossas, torneadas e muito claras, a basta pentelhada castanho-escura e - com quanta raiva o confesso! – o seu traseiro, amplo, macio, gelatinoso.

Ah! se eu tivese um cu daqueles, era feliz! Era impossível que meu titio, tendo ao seu dispor um cagueiro daqueles, pudesse vir a gostar da minha modesta bunda! Quanto ciúmes eu tive da tia naquela noite!

Parece que a leitura do tal livrinho produziu alguma coisa em titio. Ele principiou a olhar de vez em quando para a mulher, estendida de papo para o ar sobre o leito; depois passou várias vezes a mão pela altura da pica.

Finalmente levantou-se, num momento tirou toda a roupa e caminhou para a cama.

Oh! Céus! Eu então pude ver, com toda a dureza que uma tesão completa lhe dava, os vinte e cinco centímetros de nervo com que a Natureza o brindara. Que porra!

Grande, rija, grossa, com uma chapeleta semelhante a um pára-choques da Central e fornida dum par de colhões que devia ter leite para uma família inteira.

Ele chegou-se ao leito, começou a beijar a esposa nos olhos, na boca, no pescoço, nos seios e depois, quando a sentiu tão arreitada como ele estava, afastou-lhe as belas coxas, trepou para cima do leito e eu, do meu observatório, vi aquele primor de pica deslizar suavemente e sumir-se todo pelo cono papudo da titia, que auxiliava a entrada do monstro fazendo um amestrado exercício de quadris, a suspirar, a gemer, a vir-se, no mais completo dos gozos, na mais correta das fodas.

Não quis ou não pude assistir ao resto da cena. Eu tinha uma sensação esquisita no cu, parecia que as pregas latejavam. Mais tarde vim a saber que isso era tesão na bunda.

Corri para o meu quarto, fechei-me por dentro, atirei para longe a camisola, que me incomodava e, tendo arrancado a vela do castiçal, tentei metê-la pelo cu acima a ver se me acalmava. Fui caipora; as arestas da bugia machucavam-me o ânus e não a deixavam entrar.

Passei uma noite horrível.


terça-feira, 14 de outubro de 2008

Aqueles dois

(História de aparente mediocridade e repressão)

Caio Fernando Abreu

Para Rofran Fernandes:
"I announce adhesiveness,
I say it shall be limitless,
unloosen il.I say you shall yet find the friend
you were looking for."
(Walt Whitman: So Long!)


A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.

Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.

II

Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

III

Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.

Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.

Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.

IV

Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.

Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.

Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

V

Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa.

No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.Raul voltou sem luto.

Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.

Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.

Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou.

Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.

Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

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Lembrei desse texto esses dias no Rio de Janeiro e resolvi postar aqui.


quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Ser gay

A essa altura já não deve ser novidade o que saiu hoje na coluna Zapping da Fabíola Reipert. A Claudia Ohana será capa da Playboy de novembro. Acontece que a moça já posou nua uma vez e seu ensaio está para sempre na história da revista. As fotos da atriz geraram até a expressão “tão peluda como a Claudia Ohana”.

Como bom gay que sou não vou negar que gosto de um saco peludo. Mas a Claudia Ohana extrapola, ou extrapolava - só em novembro pra gente descobrir - qualquer tipo de gosto por pelos pubianos.

Aí é que apesar de todo o preconceito e de muitos homens acharem que mulher é bom a gente sabe que é sempre melhor ser gay. =]


Claudia Ohana diz: 'peluda é a mãe'


A banda GLS Cansei de Ser Sexy cita a Claudia Ohana
em uma das músicas do cd novo


terça-feira, 23 de setembro de 2008

Só quem é cata.

broken glass candy diz:
até dois meses era "não deixo por causa da osklen"
(*) ....... diz:
sim claro, a osklen mandou ele tomar no cu


quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Pela manhã

Acordou, era manhã, a luz brilhante invadia o quarto. Olhou ao seu redor. O som do piano ainda em sua mente. Escutou algum barulho, Gustavo? Rafael? Flavio? Não havia ninguém... No fim, era apenas o lençol amassado.

O piano continuava, não sabia de onde, uma melodia triste, combinava com a melancolia matinal. Respirou fundo, olhou ao redor, Carlos? Silêncio. O barulho dissipou.

Foi à janela observar a cidade lá fora, barulho, lá dentro, vazio. Acendeu um cigarro, a fumaça desaparecia e os olhos não sabiam onde se focar. Luiz?

Ligou o chuveiro, novamente respirou, dessa vez por um tempo maior. Deixou o corpo sentir a água. Sentia-se vivo, as vezes não, por hora não sentia nada. Outro barulho, Antônio? Esqueça, é tudo na mente, só lembranças, masturba-se, acalma, pega a toalha. O corpo já está seco.

Seleciona as roupas, o espelho reflete, ok. A rua, o caminho o espera, ele espera o ônibus, as gentes esperam, todo mundo espera. Lucio? Começa o dia, a ansiedade, o coletivo chega, ele entra, inúmeros rostos. Marcos? Rodrigo? Vinicius? Ninguém.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

E na última sexta rolou aniversário do Farol Madalena, na festa Diva, na The Week. Aí o comentário das amargas bichas paulistanas é que na porta da boate da zona oeste só chegavam caminhões para estacionar. Parece até que os manobristras tiveram dificuldades pra estacionar os veículos.

hehehe

domingo, 7 de setembro de 2008

Independência

E pras senhoras ficarem molhadas hoje aí segue uma singela homenagem às forças ARMADAS porque bilu que é bilu tem que dar valor a sua liberdade e independência.









E pras mais nervosas a gente indica dois vídeos. Os Recrutas e A Prisão

E é o que tem pra hoje

quinta-feira, 28 de agosto de 2008



- Áries é fogo.
- Áries é fogo?
- É, é sim, Áries é fogo! Capricórnio é que é de terra. E é por isso que você conseguiu fazer com que, ao longo desse tempo todo, eu fosse me desprendendo dessa realidade bruta a qual estou condicionado. Realidade produzida por esse meu viés capricorniano e rígido de ver o mundo. E hoje eu estou aqui, encantado e de quatro por você. Fodidamente apaixonado. E embora seja piegas isso que eu vou dizer, lá vai: estou ardendo e me consumindo aceso pelo fogo que você tão habilmente soube como manusear para me aquecer. Porque você conseguiu me mostrar novos sabores nunca dantes experimentados. Foi com você que eu, passivo de tudo, descobri que comer também é uma delícia e que a vida, e até os relacionamentos, não precisa ser como querem que seja e sim como nós queremos. Eu falei que seria piegas. Porque você me ensinou um não-ser sendo e me ensinou a ser não-estando. Porque a nossa relação, introspecção e solidão nos deram ânsias comuns, fomes iguais e o mesmo fôlego que temos para a ausência e liberdade. Porque ali quando eu acordava e te via na janela, fumando e olhando para fora, vestindo apenas aquela cueca azul claro enquanto eu morria de frio embrulhado nas cobertas, meu deus, essa era a visão do céu ao despertar. Aqueles seus poucos pelos em sua barriga, o volume do seu pau escondido por suas pernas cruzadas, seu cabelo despenteado. No quarto, éramos dois, cada um em seu mundo. Você estava ali, mas não estava, assim como eu, perdido em algum lugar de nossas introspecções. E no quarto o cheiro de seu cigarro, misturado às lembranças olfativas de você sentando e rebolando em cima de mim a noite toda, me beijando até as explosões dos nossos gozos tomar conta de tudo e a gente dormir, me eram a extensão inteira da felicidade.

...

...

E eu acordar sabendo de tudo. Sabendo que toda a nossa necessidade de solidão nada mais é do que a vontade de estar junto que se concretiza quando estamos afastados um do outro. E é por isso, por todo espaço em branco, toda lacuna, ausência e vazio que eu sinto dentro do meu peito que eu sei que eu te amo e que não te tendo, não poderia ser eu um homem mais completo. Nem haveria de ser de outro jeito se não fosse assim.

domingo, 24 de agosto de 2008

Entre amigos & amores

pesadas


românticas


feenas


barbies


mudernas


safadas


excêntrica


baladeiras


Fotos de Pedro Stephan

A exposição chega a São Paulo em 09/09, dois dias depois do feriado (que acontece num domingo) e dois dias antes do onze de setembro. Acontece no MAC, no Ibirapuera, que é pras bilus sairem do museu e do Congresso e se jogarem no Autorama.

sábado, 23 de agosto de 2008

gostosouro

Matthew Mitcham é medalha de ouro nos Saltos Ornamentais, plataforma de 10 metros masculino.

Deu erro.
Um webzine gay. Um passatempo. Rosa e bem irônico. Homo-arte e queer core.

Aqui, daqui por diante.